quarta-feira, 6 de maio de 2020

Diário de um tempo estranho (17/03/2020)



                                                               P r e c e
                                                                      
Num ermo de recôndita singeleza;
Cômoro agreste e discreto,
                                                 misterioso silêncio reinante,
                                                 de só límpida natureza.
Lá te fui encontrar, lírico,
olhar vago sobre o atlântico,
da Arrábida eterno amante.

Trazidos p'la brisa marítima
chegaram-me um tanto distorcidos,
sumidos tons sibilinos,
de tua causa íntima,
nestes belos arredores sadinos.

Encontrei-te agasalhado
no diáfano manto da tua utopia,
De ti próprio isolado,
no mundo da fantasia,
em busca do santo graal
ou da pedra filosofal  . . .

Olhar absorto, inquieto,
nevoento,vogava nas serenas,
nas azuis águas sadinas,
numa tua  surda prece ,
                                                 da Arrábida cantor;
                                                 com desvelo, com amor:

Que ela te pudesse dar
nova vida salutar. . .
Algo que não fenece,
Para tu, Sebastião da Gama,
atingires o Nirvana . . .

Que luta insana !

Bxª de Palmela, 17.03.2020
“ elmano “

Diário de um tempo estranho (05/05/2020)



Sigiloso, sem chus nem bus,
Noite velha, hora  de silêncio,
Disfarçado, secreto,
Serpenteando lentamente
sem rumo certo, em serviço de truz
cirúrgico, concreto,
Firme, a caminho do Ocidente.

Escalada a grande muralha,
O afinal vírus malígno,
Ruma à velha Rota da Seda.
Infiltrado, disfarçado, indigno,
Em segurança, livra-se da metralha
Provoca estado caótico
Ambiente social narcótico.

Sem fronteiras, sem controlo, inflexível,
Ataca tudo e todos com a morte.
Anula a raíz da vida, a economia
com uma pandemia.
No turismo, total corte;
Convívio social, sofrível.

Ele, o tratante, paulatino, virulento,
Espalhado o veneno bolorento,
Na  espreguiçadeira, à beira-mar
A ver a desgraça proliferar . . .

05.05.2020
“elmano”
 


Diário de um tempo estranho ( 01/05/2020)


DIÁRIO DE UM TEMPO ESTRANHO
Dia 1 de maio de 2020 

Acordo de madrugada
No silêncio escondido.
Tento não pensar em nada
Nesta prisão sem sentido.
Não sei mais o que fazer
Nem tão pouco o que pensar
Não me apetece escrever
Nem no sofá me sentar.
Venho à janela espreitar
Nada vejo, nada sinto
Nem o vento ao passar
Posso dizer que pressinto.
Cai a chuva de mansinho
Ao ver-me triste, ela diz:
Estou aqui! Não estás sozinho
Tens saúde e és feliz.
Sorrindo, pensei melhor
E neste sorriso tamanho
Vou com todo o meu vigor
Enfrentar este tempo estranho.


José Raposo

Diário de um tempo estranho (03/05/2020)


DIÁRIO DE UM TEMPO ESTRANHO
3 DE Maio de 2020

BENDITO CONFINAMENTO

Bendito confinamento neste tempo
Em que o tempo nos dá tempo para pensar
Será sempre um contratempo
Em casa ter que ficar.
Mas não há nada a fazer
Temos que a lei cumprir
E aceitar com prazer
Esperando pelo provir.
De manhã acordo cedo
Tomo um banho de imersão
Pois de chuveiro tenho medo.
De escorregar, pois então.
Consulto logo em seguida
A lista dos meus deveres:
Lavar a loiça, fazer comida,
São esses os meus prazeres.
Almoço logo depois uma boa caldeirada
Em vez de um copo, são dois,
Ah, que bela patuscada!
Em seguida vou dormir
Tenho a sesta por fazer
Tem que ser logo a seguir
Para à mesa não adormecer.
Á noite vai um chazinho
Um bolo e uma torrada
Um moscatel fresquinho
E uma boa cigarrada.
Que vida bela é esta!
Que estranho é este tempo!
Apesar de ser modesta
Agora é meu passatempo.
Eu só posso agradecer
Quem inventou este intento
Inteligente deve ser.
Bendito confinamento!


José Raposo


Diário de um tempo estranho (10/04/2020)


A ÁGUA CORRE...
10.04.2020

                       I
Abro a torneira e a água corre
Sobre o lavatório
um sabonete de lavanda
invade o espaço com um aroma divino

Abro a torneira e a água corre
O duche lança-me uma nuvem de vapor
o calor percorre-me
julgo navegar no paraíso

No quarto
os armários parecem pequenas cabanas de campo
lá dentro,
onde nasceu um pronto-a-vestir e uma sapataria
o conforto cheira a floresta

Da janela do meu quarto alcanço a serra
as urzes e as giestas parecem galopar
dentro do meu quarto
os zimbros e as azinheiras enfeitam-me a vidraça

Da minha sala
contemplo o mar
os navios dizem-me adeus
e as gaivotas desfilam só para mim

Abro a torneira e a água corre
na cozinha,
a mesa do café transborda de iguarias
a manteiga fervilha sobre o pão
e o perfume dos bolos entontece as narinas

Mas estou isolado
confinado neste espaço lúgubre
abro a torneira e a água corre
o quarto é um luxo
a sala o paraíso
a cozinha o celeiro da nação
mas estou só
em confinamento
isolado, triste, estressado.

Abro a torneira e a água corre...

                        II

Uma ratazana agigantada
ganhou estatuto de cachorro
as crianças brincam com ela
como se fosse um animal de estimação

As ruas enfeitam-se com lixo
os detritos multiplicam-se
com a força das ervas daninhas
e vão dominando o espaço em redor

Os dejectos humanos pululam
pelas bermas das imitações de estradas
e pelas valas das estradas imitadas
escorrem líquidos inclassificáveis

As famílias cirandam pela falta de higiene
como se passeassem num parque ajardinado

As tendas, uma espécie de casernas improvisadas
suspendem a respiração e gritam em sufoco
lá dentro,
não corre água
não existem florestas
nem azinheiras
nem janelas
nem mares
nem navios
nem tédios
nem estresses
nem vidas
nem nada
nem...

Páscoa, passagem?!...
Há ressurreições por cumprir!

Abro a torneira e a água corre...

Vai tudo ficar bem!

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


terça-feira, 5 de maio de 2020

Diário de um tempo estranho (30/04/2020)


DIÁRIO DE UM TEMPO ESTRANHO
30 de Abril de 2020

Tudo se conjugava para que fosse mais um dia como os anteriores: levantar, passar o tempo, almoçar, passar o tempo, jantar, passar o tempo e deitar. Desta vez porém consegui uma grande vitória: consegui convencer a minha mulher a sair de casa para ir às compras. Depois de várias semanas enclausurados, casa/ jardim, jardim /casa, foi com muita hesitação e muito receio que lá fomos às compras. Segunda vitória: o carro ainda funcionava e eu não havia deixado de saber conduzir. Após colocarmos a devida máscara, fizemos as necessárias compras sempre a medo, sempre desconfiados e com a agravante de nos cruzarmos com vários inconscientes sem máscara que com ar de superioridade olhavam para nós como animais do zoo. A verdade porém, é que os irracionais são os que não cumprem os conselhos que nos transmitem. São-nos fornecidos os princípios gerais contra a pandemia, mas o melhor conselheiro está dentro de nós. É verdade que o medo distorce a nossa percepção da realidade a tal ponto que onde está uma flor nós já vimos um animal feroz, mas mais vale acautelar as nossas acções do que lamentar não o termos feito. Deixo-vos agora com uma oração apropriada a estes tempos tão estranhos: Concedei-nos Senhor a serenidade para aceitar as coisas que não podemos modificar, a coragem para modificar aquelas que podemos e a sabedoria para distinguir umas adas outras. Agora com toda a serenidade vou decerto ter bons sonhos sentindo o eco deste absurdo silêncio.
                                                                                              Fernando Pereira

Diário de um tempo estranho (30/04/2020)


CONFINAMENTO - A Guerra covid-19

Da minha janela feita trincheira
Protegido de certa maneira,
Imagino lá fora no campo de guerra,
Quase deserto e silencioso,
O inimigo invisível e insidioso.
Não se sabe o poder que encerra   
E sem se revelar vai matando em segredo.
Na terra de ninguém tem um aliado; o medo.
No meu abrigo sem participações activas 
Dos comandos, vou cumprindo as directivas.
Mas na frente da luta, surda e sem voz,
Soldados valentes sem repouso nem guarida,
Arriscam a sua própria vida,  
Para salvar a vida de todos nós.
Não lhes falta abnegação e coragem,
Mesmo longe da família, que nenhum deseja.
Para as suas baixas nesta inglória peleja,
Aqui fica o meu respeito e sentida homenagem.

A.Calado
30/4/2020

Março Mulher