domingo, 3 de maio de 2020

Diário de um tempo estranho (02/05/2020)


POSTAL

Sob as dobras do seu manto
Eis-me aqui na Serra- mãe,
Tranquilo como ninguém
Envolto no seu encanto.
Sempre me causam espanto
Os seus verdes matizados,
A mais nenhuns comparados
Tal como toda a flora,
Tão bela a qualquer hora
Com mil aspectos variados.

Mal rompe a alvorada
O cuco dá-me os bons dias,
E logo outras cantorias
Começam a desgarrada.
A bela popa pintada,
O pardal, o verdelhão,
O melro espertalhão,
Tudo entra na sinfonia
E assim começa o dia
Neste abençoado chão.

O sol no seu caminho
Vai abençoando a serra
E zelando pela terra
Com o seu quente carinho
Acena-lhe o rosmaninho
E o baixote carrasqueiro
Em profusão o primeiro
E a fresca urze viçosa
Que abraça, generosa
O formoso medronheiro

E o Sol no seu passo
Continua a caminhar
Para a todos poder dar
O seu generoso abraço
Sem recear o cansaço
Abraça o velho carvalho
E delicado, mimalho
Beija a bela pascoinha
E finalmente à tardinha
Dá por findo o seu trabalho

Arnaldo Ruaz
02/05/2020



Diário de um tempo estranho (04/04/2020)


DEUSES COM PÉS DE BARRO
04.04.20

Máquinas de horrores engalanadas com estrelas da morte, desfilam sob o olhar atento da ignorância.
Percorrem campos de asfalto construídos sobre vidas de lágrimas e almas famintas.
No palanque, figuras insípidas de homo erectus, de órbitas arregaladas e mentes diminutas, desvendam esgares de felicidade.
Mais tarde, em almoços faustosos surripiados ao povo, hão-de gabar-se da força destrutiva dos seus brinquedos, vomitando fumo roubado à boca dos seus concidadãos.
Lá fora, a vida segue aos soluços entre tormentas e esperanças mortas.
Saúde, educação, justiça... sobrevivem em histórias de agonias intermináveis. Milhões definham com salários de miséria e ambições de coisa nenhuma.
Os homo erectus pavoneiam-se em bólides de última geração, enfiados em tecidos luxuosos que dariam para alimentar milhares de olhos esfomeados.
As suas fortunas, vibrantes, discutem-se em Torres de Babel que, qual monstrengo, rodopiam três vezes sobre si mesmas e acumulam-se em retângulos de usura e agiotagem. À sua passagem consomem mares, e rios, e florestas, e vidas, e almas, numa avidez gananciosa sem fim.
Os pequenos homos erectus rejubilam, extasiam, rebolam!
O povo chora, grita, suplica!...
Os crimes cometidos contra a humanidade não cessam. O planeta reinventa-se. Basta um ser pequenino, microscópico, para revelar todas as fragilidades humanas, mas também a canalhice, a ganância, o desprezo pelos outros, a impiedade infinita.
A impotência de um poderoso Golias perante um insignificante David chega a ser patética. O elefante nada pode contra a pequeníssima formiga. Onde estão agora os homo erectus e os seus brinquedos de destruição? Onde estão as fortunas onzeneiras salvas por servos obedientes?
A ciência, a educação, a segurança, as artes, ganham contornos angélicos. Descurados, depauperados, esquecidos, marginalizados, são agora a esperança da humanidade. Sempre o foram, mas os vendilhões do templo esquecem depressa os ensinamentos da história.
Se a esperança não morrer antes de nós, talvez a desgraça nos ilumine o caminho.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

Diário de um tempo estranho (03/04/2020)


SEM PRESSA
03.04.20

Há muito tempo
que não nos tínhamos assim,
um para o outro
sem pressa de partir
sem pressa de chegar
De manhã,
trocamos olhares tentadores
e fazemos amor
depois,
dormitamos abraçados
perdidos no esquecimento
O café da manhã,
entre sorrisos e carícias,
vagaroso,
prolonga-se pela tarde
Pela tranquilidade do entardecer
declamamos poemas
ao som das nossas próprias vozes
e contemplamos o horizonte,
em segredo,
até ao anoitecer,
sem pressa de partir
sem pressa de chegar
Há muito tempo
que não nos tínhamos assim,
um para o outro
Pena que fosse o destino
a fazer-nos repensar a vida
agora, que nos aproximamos
do fim.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


Diário de um tempo estranho (27/04/2020)


TEMPO PRESENTE


Vivemos hoje, alegadamente, em “prisão domiciliária”, face aos condicionamentos impostos por quem manda (“quem manda pode”), ainda que sem pulseira electrónica, porém sob vigilância autoritarista à prova de qualquer negação.
Os idosos (sou um deles–80anos) são discriminados (segregados), com todo o “empenho,” pelos mandados locais, agora promovidos a “cabos de esquadra”, mesmo que eles (idosos) demonstrem possuir boa saúde.
Tudo isto por mor de mirífica pandemia, longe de ser demonstrada de ciência certa (não há ciências exactas …).
O pânico está instalado com toda a veemência, os “cabos” reinam em perfeito arbítrio.
“Você” não pode sair do concelho de residência (ex: Em Lisboa não pode ir a Sacavém, Algés, Cacilhas, etc, etc, etc, sendo assim por todo o país). Onde habita o senso comum?    
Recordo com imensa alegria e responsável consciência, o indelével tempo do antes da moderna quarentena desumana e forçada, que tantos estorvos nos produz.
Os mandantes de todo o mundo têm por obrigação (modesto parecer de idoso resistente-assim creio), garantir a continuidade dos serviços nacionais de saúde em condições moralizadoras, já que excelentes é difícil.
A actuação de reis, de presidentes, enfim dos que têm o poder de decidir, será pedra de toque no concernente à preservação da “justiça para todos“ (não só para alguns …).
Usem de mestria, por favor, não necessitam de coragem …! 
A propósito, permito–me citar o notável, eminente e respeitável Aristóteles:
“O REI QUE POSSUI A JUSTIÇA NÃO PRECISA DE CORAGEM”
       
Luís Pinho  27/04/2020

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Diário de um tempo estranho ( 27/04/2020)


LUÍS HENRIQUE 53 ANOS


“O sucesso é ir de fracasso em fracasso sem perder
  o entusiasmo”                          Winston Churchill

Mais um ano decorreu
E o Luís nos concedeu
Uma alegria sem par.
Confinado está no lar
Com tele-trabalho assíduo,
Pois não se pode parar.
Em período conturbado,
Passamos um mau bocado,
Mas havemos de vencer
O malefício do vírus (1),
Que não tarda vai morrer.
Luís, sem esmorecer,
Com denodo e desembaraço,
Sem temor do fracasso
E caminhando com entusiasmo,
Serás sempre fulgurante,
Agora e doravante.
Vai em frente meu filho;
Demanda o rumo cintilante.

(1) Covid-19                

Luis Pinho 27-04-2020

Diário de um tempo estranho (22/03/2020)


USO INADEQUADO DA PALAVRA GUERRA
22.03.2020

Não..., isto não é uma guerra!
E seria sensato, por respeito para com aqueles que infelizmente a vivem (ou viveram), que não se fizessem comparações ligeiras e absurdas desta natureza. No contexto actual, os únicos que experienciam algo parecido com uma guerra são os profissionais de saúde, e mesmo esses, aquém da brutalidade de um confronto armado.
Numa guerra, onde também coexistem situações graves de saúde pública, a fome abunda, os telhados voam, as casas afundam-se, o chão dá lugar aos abismos, as ruas não ficam desertas porque, pura e simplesmente, desaparecem. As árvores são transformadas em combustível, os animais, que adoramos, passam a integrar a dieta humana. Há pés, e pernas, e braços, e mãos, e dedos, e cabeças, e dentes, e olhos semeados pelo chão. O fogo e as balas consomem a vida há velocidade de um relâmpago.
Numa guerra, as mulheres são violadas e esquartejadas em vida. Os filhos delas são colhidos à terra com uma ligeireza chocante. Os homens são premiados com balas ou transformados em escravos.
Numa guerra, os pais não têm tempo para se aborrecerem com os filhos, porque, infelizmente, há pais que perdem os filhos e filhos que deixam de ter pais.
Numa guerra não há tempo nem vontade para cantar à varanda, porque as atrocidades cometidas roubam a alegria de viver.
Numa guerra não existem açambarcamentos, porque os alimentos, as prateleiras e os edifícios desaparecem em simultâneo, no abraço de uma bomba.
Numa guerra, as bombas chegam mais depressa do que as máscaras, as luvas, os medicamentos, os desinfectantes ou qualquer outra necessidade hospitalar.
Numa guerra, a água escasseia e não pode ser desperdiçada em lavagens supérfluas.
Numa guerra, os megafones não anunciam palavras, cospem fogo.
No campo de batalha não há tempo para disponibilizar fotos e vídeos numa internet que não existe.
Numa guerra, as pessoas não se enfastiam com o telefone, com o computador, com a televisão, com a consola, com os cd's ou com o MP3, porque esses equipamentos não passam de banalidades sem utilidade. Enganar a fome ocupa 18 horas por dia, e as outras 6 são gastas a fugir ao inimigo.
Numa guerra não há lugar para stresses idiotas. O stress vem depois do horror da destruição.
Em democracia, respeitando os seus princípios, cada um é livre para dizer o que quiser, mas sugiro, apelo se preferirem, para que deixem de utilizar termos que em nada contribuem para ilustrar a calamidade que atravessamos, mas são ofensivos para aqueles que, perante a nossa passividade e os nossos muros de arame farpado, enfrentam diariamente o dilema de uma guerra verdadeira e excruciante.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados


Diário de um tempo estranho (02/04/2020)


SEI QUE ESTÁS AÍ
02.04.2020

Sei que estás aí,
médico, enfermeiro, polícia, bombeiro, agricultor, pescador, padeiro!...
Sei que estás aí, por ti, por mim, por nós, e isso conforta-me.
Não esqueço aqueles que nos alimentam a alma - família, amigos, artistas e professores -, mas quando a saúde e a alimentação se forem, os sonhos serão apenas memórias distorcidas, rumores.
Sei que estás aí, por ti, por mim, por nós, e isso conforta-me.
Podes não ter o salário que mereces, as condições de trabalho que mereces ou a vida que mereces, mas manténs-te aí, por ti, por mim, por nós.
As manhãs continuam a despertar, mesmo que ninguém lá esteja para as contemplar, mas tu continuas aí, por ti, por mim, por nós.
Amanhã, não sei..., ninguém sabe se vais continuar a ser herói, se vão continuar a bater-te palmas ou a acarinhar-te, mas tu manténs-te aí, por ti, por mim, por nós.
Acordo e sinto-me preso, enlouqueço, percorro as ruas vazias e sós.
Regresso destroçado.
Por vezes, neste embaraço, nem sei o que faço, e ainda que não te conheça, sei que estás aí, por ti, por mim, por nós, e sinto-me reconfortado.
É bem provável que um dia destes sejas ofendido, espancado ou apedrejado, tu sabe-lo bem e eu também, mas continuas aí, por mim, por ti, por nós.
Às vezes sinto-me perdido, desorientado, e depois penso em ti, talvez também te sintas só, esquecido e desamparado, mas continuas aí, por ti, por mim, por nós.
Quero que saibas, que apesar da minha loucura, ainda que não te conheça, nunca irei esquecer-te, porque sei que estás aí, por mim, por nós, por ti.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

Diário de um tempo estranho (29/04/2020)


M E M O R A N D U M

* Mais um dia repetitivo, de confinamento e de emergência, porém “ ocupado “ com tarefas ou caseiras, ou de algum lazer.
·           Notícias nada animadoras, um tanto repetitivas, que chegam a instalar o medo e o pânico, cujo tema é como se sabe “ Covide – 19 “ e suas apocalípticas consequências.
·           Números anunciados e visionados, sempre crescentes, virulentos e chocantes, que custam a “ digerir “, de tão pungentes e macabros.
·           A frieza e repetição massiva na divulgação desses trágicos números e “ medidas “ que são postas em execução para abrandar malefícios  deste Corona.
·           Com o objectivo de superar as audiências, tais números, são, ainda mais uma e outra vez mostrados, como se dum campeonato se trate.
·           Por vezes, nas chamadas Redes sociais “ aparecem mensagens por certo bem intencionadas, de suposta esperança, que mostram: “vai ficar tudo bem “.
·           Se ( suponho ) não fossem transmitidas com o objectivo de esperança em melhores dias e para serenar os ânimos, e ainda pelos motivos que são, não seriam credíveis.
·           Um BEM HAJA a TODOS  os profissionais de saúde e COLABORADORES e COOPERANTES, que ajudam “in extremis” a salvar vidas, nesta fase tão difícil.
             Autoridades, Serviços de limpeza, e todos quantos colaboram, Bem hajam !

29.04.2020
“elmano”

Diário de um tempo estranho (29/04/2020)

O NOSSO “ AMIGO “.


Foi na populosa China
Que apareceu certo dia
Onde engendrou uma menina
De seu nome “Pandemia”

Sorrateiro, com requinte
A co(n)vid(ar) se promove.
Não 21 nem 20
Mas somente 19.

Não é de graças nem carinhos
Ameaça-nos amiúde.
“ Fiquem em casa quietinhos
Senão trato-lhes da saúde “

--
Mandou todos p`ró “estaleiro”
Sem precisarem reparação
Depois foi p´lo mundo inteiro
Só a arranjar confusão.

_

Mas a este mandão-mor
Bem como à sua pimpolha
O pessoal de Oxford
Já pensa “fazer a folha”.



Arnaldo Ruaz.
29/04/2020

diário de um tempo estranho (29/04/2020)


Génese : terras do sol nascente;
Nome : Covid dezanove .
Pandémico, mortal, crescente,
Silencioso, infiltrado, promove
Caos, pânico, tragédia,
Expandida na multimédia.

A Terra, exausta, saturada
E bem mais que humilhada
dos humanos desmandos;
com o vírus organiza parceria
isenta de considerandos
com vista a salutar melhoria:

Trabalho messiânico:
De modo eficaz, satânico
O vírus enérgico, cumpridor,
Fértil, avassalador,
Hábil, nesta chamada aldeia global,
            Até informático, não virtual;
Sagaz, trágico,
Mágico !
Sem “ luvas “, sem máscara !
Agilidade rara,
Mais que falso, dissimilado;
Executa, a da Terra Mensagem :
                                              Alterar a deste mundo oca engrenagem. . .

                                               29.04.2020
                                               “elmano”

Diário de um tempo estranho (31/03/2020)


QUERIA TANTO DAR-TE UM ABRAÇO
31.03.2020

Queria tanto dar-te um abraço,
e ficar assim,
em silêncio,
só pelo prazer desse enlace.
Nessa impossibilidade,
vou guardar todos os abraços
e enviá-los para as madrugadas
dos abraços por dar,
assim, cada vez que o sol nascer
nem um só abraço se irá perder,
saberás,
que sou eu que te estou a abraçar.

Fernando Alagoa © todos os direitos reservados

Diário de um tempo estranho (07/06/2020)

Circunscrito ao rígido facto, incontornável / inquestionável ( na minha perspetiva ), que tem por tema: “diário de um tempo estranho”, res...